Mulheres do agro se preparam cada vez mais e vencem barreiras para liderar negócios no campo

08/03/2021

Mulheres do agro se preparam cada vez mais e vencem barreiras para liderar negócios no campo

Ainda há resistências à participação feminina na gestão, mas com formação e o avanço da tecnologia porteira adentro, elas pavimentam um caminho sem volta na sucessão em propriedades rurais

Cada vez mais mulheres se preparam para a sucessão nas propriedades rurais do Brasil, sinal de que a maior presença delas na gestão do negócio é um movimento sem volta. É verdade que inovações tecnológicas tornaram a atividade mais atraente não só para as mulheres, porém, elas conquistam espaços num ambiente até alguns anos masculino, sobretudo porque têm investido em formação para participar de um dos setores da economia que mais crescem. E para perpetuar o negócio da família, claro.

Mas, se qualquer planejamento de sucessão já é, por si só, complexo, ganha outros contornos no caso de mulheres na linha de sucessão no campo. Especialistas admitem que, em alguns casos, ainda há resistência, mas os ventos começam a mudar.

“Hoje, há uma preparação muito melhor das mulheres, elas estão muito mais capacitadas, e há uma abertura maior do sexo masculino para que participem do negócio. As próprias mulheres não aceitam mais ficar de fora, elas querem saber (sobre a atividade). E como elas multiplicam muitas informações nesses grupos de mulheres (do agro), isso se espalha pelo Brasil todo”, diz Cilotér Iribarrem, sócio-fundador da Safras & Cifras, de Pelotas (RS), que trabalha com planejamento sucessório no meio rural. O consultor acrescenta que “a postura dos pais está mudando porque eles enxergam hoje que as mulheres são supercompetentes e não conseguem mais ser tão centralizadores diante da complexidade do negócio”.

Jeffrey Abrahams, sócio-gerente especializado em agronegócios da Fesa Group, considera que as mulheres ocupam espaços porque veem que há oportunidades e se preparam para isso, mas ele reconhece que “existe ainda alguma resistência, porque o Brasil é um país machista”. No entanto, “quanto mais esclarecimento, (mais) ela vem diminuindo”. “Às vezes, um pai acha que o filho tem mais afinidade (com a atividade) e que a filha não que seja mais capaz. Se o filho for mais velho, tem um pouco disso.”

De acordo com a 7ª Pesquisa Hábitos do Produtor Rural, da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agronegócio (ABMRA), de 2017, quase um terço das propriedades dos 15 principais Estados produtores do país tinham mulheres no gerenciamento.

Fabiana Marques é uma delas. Aos 34 anos, casada e com um casal de filhos, é a responsável, desde 2012, pela gestão da Casa Branca Agropastoril, que atua no melhoramento genético de bovinos das raças angus, simental e brahman, em quatro fazendas em Minas Gerais, e faz a cria de animais meio-sangue para gado de corte em Mato Grosso.

Ela nasceu em São Paulo, mas cresceu frequentando a fazenda de gado de leite da família do seu pai, Paulo de Castro Marques, na região de Pouso Alegre (MG). Quando o pai comprou propriedades em Silvianópolis e Turvolândia, onde a Casa Branca opera hoje, e iniciou o melhoramento genético, ela o acompanhava. “Meu pai sempre envolveu os filhos na atividade”, diz a produtora, que tem um irmão mais velho.

Fabiana até começou a cursar publicidade e administração, mas o gosto pelo campo falou mais alto e ela foi estudar na Texas Tech University, nos EUA, onde se graduou em agricultura e economia aplicada, em 2011. Voltou ao Brasil e começou a trabalhar na Agropastoril com o pai, que também é sócio da farmacêutica Biolab, onde hoje seu irmão atua.

As decisões relacionadas à empresa rural são tomadas em conjunto com o pai, apesar de ele não se dedicar 100% à fazenda. “Algumas coisas tenho autonomia para resolver, mas até pela experiência (dele), me sinto segura de ter o aval dele.” Para ela, assumir uma posição que sempre foi do pai “é difícil”, assim como “é preciso entender como é difícil para os pais abrirem mão dela”. “Tem de ter paciência. Com o tempo vai se encaixando”, diz.

Fonte: Globo Rural