Agtechs delas: como a liderança feminina vem crescendo nas startups do agro

14/08/2023

Agtechs delas: como a liderança feminina vem crescendo nas startups do agro

Liderança, comunicação, empreendedorismo, afetividade, velocidade, responsabilidade e resiliência. Listadas pelo professor, sócio-diretor da Biomarketing e curador de conteúdo do CNMA, José Luiz Tejon, essas são características que mulheres naturalmente têm. E é com esses diferenciais que elas conquistam cada vez mais protagonismo no agro, inclusive nas startups voltadas ao setor, chamadas de agtechs.

Para situar, de forma um pouco mais detalhada, em que parte da cadeia produtiva essa presença feminina se encontra, o Radar Agtech 2022, desenvolvido pela Embrapa, divide as startups em três categorias: antes da fazenda, dentro e depois dela. “A primeira, abrange as mulheres que trabalham com seguros, biotecnologia, melhoramentos e planejamento. Já a segunda, são agtechs ligadas à operação da propriedade, como gestão rural, inteligência artificial e agricultura de precisão. A terceira, é mais ligada a transporte, logística, foodtechs, rastreabilidade, entre outros”, explica a Head de Inovação, Negócios e Transferência de Tecnologia da Embrapa, Janaína Tanure.

Um dado importante do Radar é o fato de que a maior parte dessas startups estão concentradas no movimento final da cadeia produtiva – o ‘depois’ da fazenda. “Este cenário demonstra que, mesmo com o crescente movimento de mulheres no segmento, dentro das propriedades ainda encontram desafios na ocupação de cargos de liderança”, diz.

Outro ponto que Janaína ressalta é em relação a dificuldade que as empreendedoras encontram no momento de começar a colocar em prática as tecnologias desenvolvidas. “Para validar e testar suas ideias, elas precisam estar em fazendas, em condições reais de operação. E nem sempre encontram a mesma ‘abertura’ que um homem teria”.

Além disso, é fundamental que se tenha um crescimento nos investimentos em mulheres empreendedoras. “Porque não adianta somente o apoio, é preciso ajudar a criar um ecossistema que favoreça e facilite esse desenvolvimento. E tenho percebido que, aos poucos, o movimento de figuras femininas à frente de agtechs tem aumentado, assim como os programas de aceleração com foco nelas”, complementa Janaína.

Para conferir o relatório completo, clique aqui.

Mas, afinal, quem são elas?
Cada vez mais fica evidente o poder de liderança, inovação e de resultado das empresas fundadas por mulheres. Por exemplo, uma pesquisa citada no Radar, realizada pelo Sebrae em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostra que 11% das empreendedoras inovaram em seus negócios durante a crise, diante de 7% dos homens. Mas, afinal, quem são elas?

Formada pela ESALQ/USP, CEO e fundadora da GeoApis, uma startup pioneira especializada na mitigação e prevenção de mortalidade de abelhas. Esta é Elaine Basso, uma das mulheres na liderança de startups no Brasil.

“A GeoApis é minha segunda empresa. A primeira é de Educação Ambiental, fundada em 2013, quando eu ainda trabalhava na ANDAV. Sentia falta de ter mais liberdade de horários e o sentimento de poder colocar em prática minha visão era forte. Foi o que me fez querer virar empreendedora”, compartilha.

A startup surgiu a partir de sua prestação de serviço na área de relacionamento com stakeholders e comunicação, realizada para empresas e entidades do setor de defensivos agrícolas. “Era nítida a necessidade de se ter uma empresa focada nesse assunto, para levar essa expertise e uma solução eficaz às agroindústrias, contemplando o atendimento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”.

Mas, sendo mulher, nem tudo são flores. Pelo contrário, a caminhada apresenta diversos desafios. “A trajetória de toda mulher no ambiente profissional não é fácil, é pesada e muito desafiadora, não pelo contexto técnico, mas pelo conceito social. A sociedade patriarcal necessita da nossa mão-de-obra, mas nos limita na escalada”.

“Por várias vezes, minha visão foi ofuscada pela dúvida, e muitas notícias que hoje são atuais sobre o tema, eu já previa há pelo menos cinco anos, e numa caminhada com pandemia e gravidez. Sem contar o fato de quando a gente é mãe, temos também a maior responsabilidade na criação dos filhos, que é constantemente cobrada no ambiente social e escolar”, diz.

“Hoje sou muito orgulhosa de mim, porque construí uma startup feminina que transforma o ambiente por onde passa, porque acredito que o mundo melhor está nas pequenas ações, no ambiente colaborativo”.

Pensando no futuro, ela acredita que a nova geração terá muitos avanços, “porque a sociedade que está por vir é criada por mulheres que estão lutando hoje, os seus filhos e filhas já não aceitam, entre outros temas, a desigualdade de gênero”, finaliza.

Outra história inspiradora mostra que é possível, sim, unir cadeia de leite, tecnologia e liderança feminina! Engenheira de Controle e Automação por formação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gabriela Borlido se tornou CEO da RúmiCash, fintech que disponibiliza linhas de crédito e antecipações de pagamento de leite aos fornecedores do laticínio. A tecnologia faz parte do ecossistema de soluções digitais da Rúmina.

“Depois de atuar no mercado financeiro, em 2020 fui para a Rúmina, logo quando estava sendo constituída, já com a missão de criar uma fintech para a cadeia do leite. Um ano depois, em agosto de 2021, a RúmiCash já estava consolidada e fazia sua primeira operação financeira. Este ano, a RúmiCash completa dois anos e já conta com 15 laticínios parceiros e mais de duas mil operações financeiras realizadas”.

“Da minha chegada à Rúmina até a primeira operação da RúmiCash, houve esse intervalo de um ano. Em primeiro lugar, me dediquei a aprender tudo que pudesse sobre o mercado lácteo. Junto com uma equipe de profissionais brilhantes, visitei muitas fazendas de leite, conversei com produtores, conheci laticínios e mergulhei nas dores de cada elo da cadeia do leite”, explica.

Desde muito cedo, sua trajetória acadêmica e profissional caminhou por ambientes predominantemente masculinos, mas Gabriela tinha uma ‘carta na manga’. “Por vezes, utilizei a excelência como ferramenta para me destacar profissionalmente em ambientes onde não haviam outras figuras femininas em posições de liderança. Desde cedo, eu soube que, se realmente quisesse grandes conquistas e uma posição relevante, deveria provar, por meio da qualidade do meu trabalho, que aquele espaço poderia ser meu”, conta. Sobre a participação e protagonismo feminino na área de tecnologia para o agro, a CEO diz que, apesar do crescimento, ainda há um longo caminho a ser percorrido até que os espaços deixem de ser majoritariamente masculinos. “Penso que todos nós, que integramos o setor, temos a missão de mostrar que mulheres são bem-vindas, tanto quanto os homens. Temos a obrigação de valorizar o trabalho bem feito e avaliar a competência dos profissionais com base somente em sua performance”, encerra.